Tuesday, January 28, 2020

Setenta e cinco / Seventy Five

Note: English version below



Há 5 anos, quando estava na Polónia tive a oportunidade de visitar não só o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, como também o campo (ou o que resta dele) de exterminação de Treblinka. 

Em Auschwitz-Birkenau vimos cenas horripilantes como as fotografias dos milhares de pessoas, incluindo idosos e crianças, que ali chegaram, os bens que lhes eram retirados, incluindo dentes de ouro, sapatos, cabelo… vimos de perto o sitio onde dormiam, praticamente despidos, descalços... Era verão, mas eu estava na Polónia há 7 meses, e o frio que enfrentara (num inverno apesar de tudo ameno), numa casa aquecida, com roupa de época, fazia-me questionar como é que alguém sequer conseguiu sobreviver naquelas condições atrozes. 

Falei com pessoas que visitaram a Polónia, mas que foram incapazes de visitar os campos de concentração, eu percebo, mas forcei-me a fazê-lo porque há eventos históricos que por mais horríveis que sejam não podemos esquecer. Porque há momentos que por mais desconfortáveis que sejam temos de encarar para não esquecermos da importância dos valores, de lutar pelos direitos humanos, mesmo que não sejam os nossos que estão a ser postos em causa.

O campo de Auschwitz-Birkenau está em grande parte intacto e permite aos visitantes ter uma imagem bastante clara do que ali se passou, no entanto, talvez pela quantidade de visitantes presentes, por estar num grupo maior ou por já ter visto tantas imagens do campo e relatos do mesmo, não foi o local que mais me impressionou.

Curiosamente, foi visita ao campo de exterminação de Treblinka, que mais me afectou.  Ao contrário do famoso Auschwitz, em Treblinka encontrámos pouco mais do que um enorme relvado, com grandes árvores e o memorial lá construído. As provas das atrocidades que lá aconteceram, na sua grande maioria apagadas por quem as cometeu… e ainda assim o peso de tudo o que lá aconteceu acompanhou-me a cada passo. 

Estava um dia solarengo, o vento agitava levemente as folhas das árvores, éramos os únicos visitantes e não se ouvia nada à nossa volta… Lembro-me de pensar “como é que um lugar tão bonito, tão tranquilo, pode ter acolhido tanto mal?”… 

Em Treblinka não havia distrações. Não havia turistas, nem guias, nem folhetos, nem cartazes com estatísticas e explicações… Em Treblinka não havia nada que nos ajudasse a distanciar do que lá aconteceu… O silêncio de Treblinka era ensurdecedor. 

Durante a minha estadia na Polónia fiz visitei Praga, Berlin, Viena… cidades todas elas com uma história manchada pelo período Nazi. E em todas elas ouvimos relatos impressionantes do que foi (sobre)viver durante esses anos, mas nada conseguiu transmitir o que Treblinka me transmitiu. 

Acredito fortemente que devemos enfrentar estes momentos, aprender, ler, falar sobre eles… É importante percebermos a fragilidade da nossa sociedade, não por uma questão de alarmismo, mas para podermos combater o ódio que leva a que este tipo de acontecimentos se repita em maior ou menor escala ao longo da história da humanidade. 

75 anos não é assim um passado tão longínquo… A minha avó tinha 12 anos quando a II Guerra terminou… a minha mãe nasceu 14 anos depois… não foi assim há tanto tempo, e apesar do que muitas vezes pensamos, a nossa sociedade não se alterou de uma forma tão radical que estejamos seguros de que isso não aconteça outra vez. Aliás, sabemos bem que em vários países do mundo muitas pessoas são ainda hoje vítimas de atrocidades horríveis. O holocausto não foi o único genocídio da história. E a discriminação, essa está longe de ser erradicada.

Muito se tem falado dos crimes de ódio e raciais nos últimos tempos. E muitas são as pessoas que acreditam que hoje em dia não há racismo em Portugal. 

As pessoas querem acreditar que Portugal é um país que acolhe todos de forma calorosa, as pessoas fingem acreditar que não há diferenças na forma como as pessoas são tratadas. Não me atrevo sequer a fingir que sei o que é passar por isso, porque não o sinto na pele, e porque por mais que tente estar atenta tenho a plena noção de que há situações que não me apercebo, mas eu vi como “pessoas de bem” reagiram quando um grupo de jovens órfãos refugiados chegou até nós, eu vejo como “pessoas de bem” não são racistas, mas não querem miúdos ciganos a brincar à sua porta,  eu vejo como “pessoas de bem” reagem de forma diferente à minha família e aos meus amigos pretos, eu oiço os comentários estereotipados que as “pessoas de bem” fazem sobre os meus amigos LGBTQ… e se eu o sinto no dia-a-dia, em vários momentos ao longo do dia, mesmo não me afectando directamente, imaginem o que é ter de enfrentar isso uma vida inteira. 

Podemos continuar a fechar os olhos, a dizer que não somos homofóbicos porque “até tenho um amigo gay…”, que não somos racistas “só não quero que a minha filha namore com um preto…”, que não temos nada contra os ciganos “por acaso conheço um e até é honesto…”, mas tudo isso é uma ilusão. E são essas ilusões que nos levam a acreditar que o que aconteceu há 75 anos não poderia voltar a acontecer agora, pelo menos não na nossa Europa “civilizada”, mas se pensarmos bem sabemos que é uma falsa sensação de segurança. 

Uma das grandes lutas da minha vida tem sido tentar perceber qual é o meu papel no mundo, porque não assumo a minha existência com leviandade. Tive o privilégio de nascer branca, num país democrático, em paz e numa família de classe média. Condições que deveriam ser transversais a todos nós, mas que infelizmente não o são. Ao nascer, sem razão nenhuma, sem ter feito nada por isso, logo à partida tive um conjunto de benefícios que outro bebé que nasceu exactamente no mesmo dia nunca terá… Não tive influência nessa decisão, não me devo sentir culpada com isso, mas acredito que devo tentar ao menos fazer algo de positivo com a oportunidade que tive. 

Não é fácil, tenho muita dificuldade em debater temas como o racismo e a discriminação, simplesmente pelo facto de para mim ser tão óbvio que não faz sentido que me é difícil manter uma conversa com alguém que pense o contrário. É frustrante não ter o tipo de personalidade e de coragem que me permitam fazer/dizer mais, mas tento fazê-lo tanto quanto consigo, porque o ódio não se combate com ódio, e só com educação podemos mudar estas mentalidades.

Para além de todos os privilégios com que nasci, talvez o maior de todos seja o facto de, ao longo da minha vida, ter contactado com várias realidades, das pessoas que me são mais próximas e queridas não serem iguais a mim, de me permitirem ver o mundo também pelo seu olhar, por me ajudarem a estar atenta e por me fazerem acreditar sem o menor pingo de dúvida que o valor de uma pessoa não está na cor da sua pele, etnia, orientação sexual, etc. 

O Mundo não é justo, e talvez nunca o será, mas podemos fazer melhor que isto, podemos ser melhor que isto. 


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Seventy Five


Five years ago, when I was living in Poland, I had the opportunity to visit, not only Auschwitz-Birkenau concentration camp, but also Treblinka extermination camp (or at least what’s left of it).

In Auschwitz-Birkenau we saw heinous scenes such as pictures of the thousands of people, including children and elderly who were brough there to die, the belongings that were stolen from them including teeth, shoes, hair… we saw up close the places where they slept, barely dressed, barefoot… It was summer, but I had been in Poland for 7 months, and the cold that I had faced (in a not so cold winter), in a heated house, with winter clothes, made me wonder how anyone had even survived in those conditions. 

I spoke with people who have been to Poland and were unable to visit the concentration camps, I understand that. I forced myself to do it, because there are historic events that no matter how horrible we must face so we never forget the importance of human values, and to fight for human rights, even when we’re not the ones being threatened. 

Auschwitz-Birkenau concentration camp is mostly intact and allows its visitors to have a clear image of what happened there. However, maybe due to the number of visitors, because I was in a bigger group or because I’d seen images of the camp before, it wasn’t the place that most affected me. 

Curiously it was the visit to Treblinka extermination camp that most impressed me. Unlike Auschwitz, in Treblinka we found mostly grass, tall tress and a memorial. The evidence of the atrocities committed there, mostly erased by their authors… and yet the weight of everything that that place witnessed followed me every step I took.

It was a sunny day, the wind blew lightly, we were the only visitors and we couldn’t hear anything around us… I remember thinking “how can such a beautiful, peaceful place have been the home of something so evil?”…

In Treblinka there were no distractions. There were no tourists, no guides, no flyers with statistics and explanations… There was nothing that helped us gain some distance from the events that happened there… The silence of Treblinka spoke volumes.

While I was in Poland, I visited Prague, Berlin, Vienna… all those cities’ history stained by the Nazis. In all of them I heard impressive stories about how it was to survive during that period, but nothing touched me like Treblinka.

I strongly believe that we must face these moments, we must learn and read and talk about them… It’s important to understand the fragility of our society, so we can fight the hate that drive us to these kind of events over and over in human history.

75 years is not that long… My grandma was 12 when the Second World War ended… My mom was born 14 years later… it’s not that long ago, and despite what we think, our society hasn’t change so much that we are safe from that happening again. In fact, we know that around the world a lot of people are still being victims of horrible atrocities. The holocaust was not the only genocide of history. And discrimination… that’s far from being eradicated. 

We’ve been talking a lot about hate and racial crimes lately. A lot of people believe that racism is not present in Portugal anymore. 

People want to believe that Portugal is a country that welcomes everyone warmly, people pretend to believe that everyone is treated the same way. I don’t even dare to pretend to know what it feels to live with that, because I don’t feel it in my skin, and because no matter how aware I try to be, I know there’s a lot I don’t see… But I saw how “good people” reacted when a group of orphan refugees arrived to my work place, I see how “good people” are not racists but don’t want gypsy kids playing on their street, I see how “good people” act towards my black friends/family, I hear the comments “good people” make about my LGBTQ friends… and if I feel it every day, even if it’s not directed to me, imagine how it must be to live with this every day of your life.

We can keep closing our eyes, say we are not homophobic “we even have a gay friend…”, that we are not racists “I just don’t want my daughter dating a black guy…”, that we don’t have anything against gypsies “actually I know one that’s honest…”, but all of that is an illusion. And those illusions are the ones that make us believe that what happened 75 years ago could never happen again, at least not in our “civilized” society. But if we really think about it, we know it’s a false sense of security.

One of the biggest struggles of my life has been to figure out what’s my role in the world, because I don’t take my existence lightly. I had the privilege to be born white, in a democratic and peaceful country, in a middle-class family. These conditions should be transversal to all of us, but they’re not. I was born, and just like that, for no reason, I had a set of benefits that another baby born in the exact same day will never have… It’s not my fault, I shouldn’t feel guilty about it, it was out of my control, but I believe I should at least do something positive with the opportunity that I was given. 

It’s not easy, I have a really hard time debating things like racism and discrimination, because for me it’s so obvious that none of it makes sense that it’s hard to keep a conversation with anyone that thinks differently. It’s frustrating not having the personality and the courage to say more and do more, but I try to do as much as I can, because hate can’t be fought with hate. We need education to change these mentalities. 

Of all the privileges I was born with, maybe the biggest of them all was the fact that, in my life, I contacted with different realities, that some of my closest and dearest people are different from me, they allow me to see the world through their perspective, they help me be aware and made me believe, without an ounce of doubt, that a person’s value is not in the color of their skin, their nationality, sexual orientation, etc. 

The world is not fair, maybe it will never be, but we can do better than this, we must be better than this. 



Monday, December 09, 2019

Boavida


Note: English version below


Olá,

Quando fui a Moçambique pela primeira vez, em 2011, conheci 3 irmãos incríveis, que apesar de todas as adversidades que enfrentavam continuavam focados em estudar para um dia poderem ter uma vida melhor.

Na altura com 13, 11 e 9 anos, a Noélia, o Boavida e a Cátia viviam com a mãe, viúva, numa “casa” inacabada – sem chão, sem janelas, sem cozinha, sem casa de banho, sem nada…

Quem me acompanha há mais tempo talvez se lembre que nessa altura criámos um movimento de crowdfunding e com esse dinheiro conseguimos ajudar a família a acabar a construção da sua casa, onde hoje vivem confortavelmente e com muito orgulho no seu “palácio”, como chamam. Podem encontrar mais informação sobre esse projecto aqui e aqui.

Quando os conhecemos, falámos com a mãe e percebemos que o seu salário era de cerca de 100€/mês, perguntámos-lhe como conseguia manter as crianças na escola, comprar os uniformes, pagar o transporte, os materiais, etc. A mãe respondeu “Para a escola tem de haver sempre dinheiro. Pode não haver dinheiro para comer, mas para a escola tem de haver".

Desde essa altura tenho vindo a apadrinhar os 3 miúdos, agora já jovens, com uma quantia mensal de forma a poder ajudá-los a manterem-se na escola.

Entretanto passaram-se quase 8 anos e os 3 irmãos conseguiram completar já o ensino secundário. A irmã mais velha, agora com 21 anos, já teve um filho e vai casar (algo comum na cultura apesar da tenra idade), mas o Boavida e a Cátia, agora com 19 e 17 anos, estão determinados a continuar os estudos.

Os irmãos já estiveram um ano parados, sem estudar, porque não conseguem fazer face aos custos que ir para a faculdade implica, contudo não desistem do seu sonho.

Estivemos juntos há cerca de dois meses, estão crescidos, são jovens educados, articulados e que têm um potencial imenso. Ao longo dos anos o Boavida tem revelado uma veia empreendedora, escreve músicas, já teve um negócio de fotografia com amigos, e apesar das suas próprias dificuldades mostra-se sempre super disponível para apoiar os projectos solidários da nossa associação.

O ano lectivo em Moçambique começa em Janeiro e o Boavida escreveu-me há uns dias a pedir ajuda para continuar a estudar, gostava de tirar o curso de Gestão Empresarial. A mensalidade da faculdade fica em 4000 meticais, cerca de 60€, o que não sendo muito para os nossos padrões, é um valor altíssimo para esta família.

Neste momento, sozinha, também não consigo dar muito mais, contudo achei que passando a palavra entre família/amigos/conhecidos talvez encontrássemos gente suficiente para ajudar. E assim surge esta mensagem, que é um pedido de contribuições.

Pensámos em duas modalidades de contribuição. A nossa sugestão é:

. Caso estejam disponíveis para apoiar durante todo o ano, o que ajudaria muito, sugerimos 10€/mês;


. Caso não possam assumir esse compromisso mas ainda assim queiram ajudar pontualmente (uma vez por ano) a nossa sugestão é de 20€ por pessoa, para ser um valor que não custa muito a dar.

Se quiserem dar um pouco mais (ou menos), é claro que é bem-vindo, e se quiserem passar a mensagem a mais alguém também! Se cada pessoa desse 10€ por mês, bastava 6 pessoas envolverem-se para conseguirmos garantir que o Boavida vai para a faculdade. Quem sabe até não conseguimos motivar gente suficiente para que a Cátia possa fazê-lo também? 😊


Há já 4 anos que temos uma iniciativa semelhante com duas crianças na Índia e tem corrido muitíssimo bem. Tal como fazemos na Índia, temos também em Moçambique uma pessoa de contacto de confiança a quem seria entregue o dinheiro e que teria a responsabilidade de fazer os pagamentos das propinas.

Caso estejam disponíveis para nos ajudar nesta causa por favor respondam e enviaremos os restantes detalhes. (por email podem contactar para geral@mundoinseparável.pt).

Deixo-vos com algumas fotografias do Boavida ao longo dos anos, desde que o conhecemos.

Muito Obrigada!






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Hello,

When I went to Mozambique for the first time, in 2011, I met 3 amazing kids, that despite all the adversities they faced still remained focused on staying in school so they could, one day, have a better life.

At the time Noelia, 13, Boavida, 11 and Catia, 9 lived with their mom, a widow, in an unfinished “house” – without floor, windows, kitchen, bathroom, anything…

For those who follow me for longer, you may recall that at the time we started a crowdfunding movement in order to help the family finish the construction of the house. They’ve managed and today that’s where they live, happy and proud of their little “palace”, as they call it.

You may find more information about that project here and here.

When we first met them and realized their mom’s salary was about 100€/month, we questioned her how she managed to keep all 3 kids in school, pay for the school uniforms, transportation, school supplies, etc. The mom answered “We must always have money for school. We may not have money to eat, but for school we must always have”.

Since then I’ve been “sponsoring” these 3 kids, with a monthly allowance in order to help them stay in school.

Now, almost 8 years later, all 3 kids have finished 12th grade.

The older sister, now 21, recently had a baby and she’s about to get married (not unusual for the culture, despite her young age), but Boavida and Cátia, now 19 and 17, remain focused on studying.

The siblings have not been studying for the past year because they didn’t have enough money to pay for University, however they haven’t quit on their dream.

We were together 2 months ago. They’re all grown up, they’re polite, responsible, articulated and have an amazing potential. Over the years Boavida has revealed a nice entrepreneurship sense, he writes songs, he had a photography business with a friend, and despite his struggles he’s always 100% available to help with our organization’s projects.

The school year in Mozambique starts in Januaty and Boavida wrote me a couple of days ago asking for help, he would like to go to the university and study Business & Management. The monthly cost for Boavida to go to the University is 4000 meticais, around 60€, which may not seem a lot to us, but it’s an extremely high cost for this family.

At the moment, alone, I’m not able to help them much more, but I figured that maybe by speaking with family/friends I could gather enough people to help. That’s what this message is for – asking for help.

We figured you could help in 2 ways:

. If you are willing to help once a month – which would be amazing - we’d suggest 10€/month.

. If you want to help but are unable to make such a commitment, or wish to help only once, we suggest 20€.


If you wish to help with more (or less), of course it will be welcomed. And if you can share this with other people that can be very helpful too! If each person would give 10€/month we’d only need 6 people to ensure Boavida can continue his studies. Who knows, maybe we can even inspire enough people to help and get Catia to study too? 😊


For the past 4 years we’ve been running a similar initiative in India with 2 children and it’s having amazing results. Like in India, in Mozambique we also have someone we trust who would be responsible to get the money from us and pay to the university directly.

You can really make a difference!

If you are willing to help please comment down below or email me at geral@mundoinseparavel.pt and I will send you more details.

I’m leaving you with some pictures from Boavida over the years.

Thank you very much!




Thursday, November 28, 2019

See you soon, see you always! / Até já, até sempre!


Nota: Versão portuguesa mais abaixo.


I’ve played basketball my whole life, and the other day I realized I used to see life as basketball game – where there was a beginning and an end, and all that mattered was the final result. As a little girl I saw life as a straight line. I had everything panned out. I knew what I was going to study, what profession I wanted to have, what age I wanted to become a parent, which places I wanted to visit, which people I wanted by my side… I thought I knew everything, from beginning to end, I had a route, and I wasn’t ready for detours, I didn’t want to waste any time.

It took me a long time to understand that in reality nothing in life happens in a straight line. That life itself is nothing but a million of cycles, an endless amount of beginnings and endings, and that it’s often in the detours that we acquire most of our learning.

Unlike I anticipated, pretty much everything that happened to me since college was a detour. Opportunities that fell in my lap and that in one way or another led me to the next challenge.

I used to be terrified of endings. I spent my senior year of college having one anxiety crises after another because I didn’t know what I’d do next with my life, on my last day as an Au Pair I cried the moment I got on the train to leave the host family – even though I was ready to go, even though it was my decision to leave – because I didn’t know what would happen next…

For me, every ending meant restarting the game, going back to 0 and build up a positive score again.

Then one day I noticed with every experience the big bad “monster fear” seemed to get a little bit smaller. So I went back to my idea of the basketball game, but I changed my perspective. I started thinking that instead of seeing every new experience has a restart of the game maybe I could just see them as a new quarter. Anyone that knows the game of basketball will tell you that a game can change completely from one quarter to another, and the reason why is because in each quarter you enter the court with more knowledge about your opponent than you had the quarter before.

The problem with my premise wasn’t that life isn’t like a basketball game, the problem was that I was seeing a basketball game as a straight line, when in reality it’s full of detours - every quarter, every time out, every tip the coach gives you, changes something about the game.

Plus, if I look as endings not as the end of the game, but just the end of a quarter, they don’t seem that scary, because there’s still a chance to get back on the court and keep working towards that final result.

And so, even though I’m still not a fan of uncertainty, I’ve learned not to fear endings so much…

I realized over the years that what I gained with every detour was worth the delay, I realized each ending had taken me to another beginning, and it’s hard to even fathom where I would be, who I would be, if I had caved into my fears and limited myself to the straight path line I had always envisioned.

As an Au Pair I learned to stop running from myself and to embrace who I am. I learned about intimacy and unconditional love. I discovered I was stronger than I ever thought, and most importantly I learned to be free.

In TP I learned it was okay not to be the most qualified person in the room, that it is okay to ask for help, to rely on your team. I learned to face my mistakes, and maybe more than ever, to cope with my anxiety. I saw myself for the first time in a male-dominated environment and I felt extremely supported and respected.

As a volunteer abroad I learned to trust my instincts, to rely on more than words to express myself, I learned I was good at working with older kids and even teenagers! I finally gathered the courage to take the first steps towards the decade long dream of creating a non-profit org.

In CAF, though a very short experience, I met a kid who I will never forget. Here I was completely on my own, I had to try new techniques and be resilient. I found myself rethinking labels, automatic responses… it wasn’t always easy, but it reminded me how someone can touch one’s life even in a very short period of time.

Now once again I find myself facing another ending. When I first got invited for this project and got a 3 year offer it scared the heck out of me. I wasn’t sure I was ready for such a long-term commitment. Nothing was clear at first, no one really told me what my job was or what was expected of me, and it took me a long time to figure out what my actual role should be…

The one thing that was clear from the beginning was that those kids needed attention, those kids needed to be seen, they needed to be heard. Little did I know those simple actions would go such a long way. The work was challenging at first, a very unstructured environment, undefined roles or goals, very unlike everything I’d done before… but because of my past experiences now I was able to see that as something positive, all it meant was that I had the flexibility to do whatever I wanted to, to adjust my job to my values and the kids’ interests and needs. And in a very natural way, not only my worlds started colliding, they mashed perfectly.

In Roda, more than everywhere else I’d been, the relationships were the foundation to everything, and what I was once again able to prove is that if you invest in the relationship with a kid (no matter how old), good things will happen. With some kids I had to claw and scrape for every inch, but once I’d gain their trust there was a sense of loyalty I wasn’t used to. I’ve never felt so fiercely protect as by the kids in Roda.

Roda allowed me to put in practice all the skills I’ve been collecting my whole life, and to be honest that’s what I’ve felt with each and every of my past experiences. There has been some I’m more passionate about, others that are more in my alley, but overall each experience has thought me something. Which is why I choose not to see this ending as something sad.

Who knows what will come next? For me, for the kids, for the team, for all of us. Together or apart, life for sure has so much more ready for us.

Most times what people fear the most is not the ending itself, but what it might represent to the relationships that were built over that period. I get that, I too used to be afraid of that. But that’s actually the best part. The best part is that if you do things right you don’t have to lose anything or anyone, if you make the right choices if you keep showing up and being available for people even when there’s no schedule that forces you to, then relationships may change, they’ll evolve, but they never have to end.



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Até já, até sempre!

Joguei basket a vida toda, e no outro dia percebi que costumava encarar a vida como um jogo de basket – onde havia um princípio e um fim, e tudo o que interessava era o resultado final. Quando era pequena via a vida como uma linha a direito. Tinha tudo planeado. Sabia o que ia estudar, que profissão iria ter, com que idade queria ter filhos, que sítios gostaria de visitar, que pessoas queria ao meu lado… Pensava que sabia tudo, desde o inicio ao fim, tinha um caminho e não estava disposta a aceitar desvios, não queria perder tempo. Pensava que o objetivo era ir de A a B o mais depressa possível. 

Demorei muito tempo a perceber que na realidade, nada na vida acontece em linha recta. Que a vida em si não passa de um milhão de ciclos, uma quantidade inimaginável de inícios e fins, e que é geralmente nos desvios que aprendemos as maiores lições. Ao contrário do que antecipara, praticamente tudo o que me aconteceu desde que saí da faculdade foi um desvio. Oportunidades que me caíram no colo, e que de uma forma ou de outra me levaram ao desafio seguinte.

Os finais eram algo que me costumava deixar aterrorizada. Passeio o meu último ano de faculdade numa crise de ansiedade atrás da outra porque não sabia o que ia fazer com a minha vida quando terminasse os estudos, no meu último dia como Au Pair chorei assim que entrei no comboio e deixei a família de acolhimento – apesar da decisão de partir ter sido minha – porque não sabia o que ia fazer a seguir… Para mim, cada final significava recomeçar o jogo. Voltar ao 0 e ter de trabalhar arduamente para atingir um resultado positivo novamente.

Até que um dia reparei que com cada experiência esse grande “monstro do medo” ficava um bocadinho mais pequenino. Decidi então rever a minha teoria da vida ser como um jogo de basket… e percebi que em vez de encarar cada experiência como o recomeçar de um jogo se calhar podia tentar vê-la como o início de um novo período. Qualquer pessoa que conheça o jogo do basket vos dirá que um jogo pode mudar completamente de um período para o outro, e isso acontece porque em cada período entras no campo com mais conhecimento sobre o teu oponente do que no período anterior.

O problema com a minha premissa não era o facto da vida não ser como um jogo de basket, o problema era ver o jogo de basket como uma linha recta, quando na verdade também ele é cheio de desvios – cada período, cada desconto de tempo, cada dica que o treinador te dá muda algo no jogo. Para além disso, percebi que se não olhasse para os finais como o fim de um jogo, mas apenas como o fim de um período, esses finais não pareciam tão assustadores, pois existia sempre a hipótese de voltar a entrar em campo para atingir um resultado final melhor.

E foi assim que, ainda que não seja fã de incertezas, aprendi a não temer tanto os finais…
Ao longo dos anos percebi que o que ganhei com todos os desvios que fiz até agora compensou sem dúvida o tempo “perdido”. Percebi que cada fim me levou a um novo inicio, e é difícil de sequer imaginar onde estaria, quem seria hoje, se tivesse cedido a esses medos e me tivesse limitado ao caminho em linha recta que sempre tinha imaginado para mim.

Como Au Pair aprendi a parar de fugir de mim mesma e aceitar quem sou. Aprendi sobre intimidade e amor incondicional. Descobri que era mais resiliente do que pensava e, mais importante que tudo, aprendi a ser livre.

Na TP aprendi que não fazia mal não ser a pessoa mais qualificada da sala, que não havia nada de errado em pedir ajuda, confiar na equipa. Aprendi a encarar os meus erros, a viver com imprevisibilidade, e talvez mais do que em qualquer outro sítio, a lidar com a minha ansiedade. Vi-me pela primeira vez inserida num ambiente maioritariamente masculino e senti-me extremamente apoiada e respeitada.

Como voluntária internacional aprendi a confiar nos meus instintos, a confiar em mais do que palavras para comunicar. Aprendi que conseguia trabalhar com crianças mais velhas e até adolescentes! Finalmente ganhei coragem para tomar os primeiros passos na direção de um sonho de mais uma década – o de criar uma organização sem fins lucrativos.

No CAF, ainda que uma experiência curta, conheci um miúdo que nunca vou esquecer. Aqui, estava completamente sozinha, tive de experimentar novas metodologias e ser resiliente. Questionei muito os rótulos, as respostas automáticas… Nem sempre foi fácil, mas relembrou-me algo importante – como uma pessoa pode tocar uma vida ainda que só se cruzem por um curto período de tempo.

Agora mais uma vez me encontro nesta posição de encarar mais um final. Quando fui convidada para este projecto e recebi a proposta para um contrato de 3 anos isso assustou-me. Não tinha a certeza se estava pronta para um comprometimento de tão longa duração. Nada era claro no início, ninguém me disse exactamente qual seria o meu trabalho ou o que era esperado de mim, e demorei bastante tempo até descobrir qual deveria ser o meu papel.

Só uma coisa foi clara desde o princípio – que os miúdos precisavam de atenção, que mereciam ser vistos, ouvidos. Na altura nem imaginava como algo tão simples iria impactar tanto o meu desempenho. No início foi desafiante, um ambiente muito destruturado, objetivos e papeis indefinidos, muito diferente de tudo o que tinha feito até então… Mas por causa de todas as experiências anteriores consegui ver isso como algo positivo, para mim significava que tinha flexibilidade para fazer o que queria, podia ajustar as minhas funções aos meus valores e às necessidades e interesses dos miúdos. E assim, de forma muito natural, não só os meus mundos começaram a colidir, como se uniram na perfeição.

No Roda, mais do que em qualquer outro sítio onde tinha estado antes, as relações foram a base de tudo. No Roda provei mais uma vez que se investirmos na relação com um miúdo (independentemente da idade) coisas boas vão acontecer. Alguns miúdos deram mais luta, mas quando finalmente ganhávamos a sua confiança respondiam com um sentimento de lealdade tão forte que não estava habituada. Nunca me senti tão protegida como me senti pelos miúdos do Roda.

O Roda permitiu-me por em prática todas as competências que fui adquirindo ao longo da vida (muitas delas nos inúmeros desvios que fiz), e para ser sincera é isso que sinto em relação a todas as experiências que tive no passado. Houve algumas que foram mais apaixonantes ou até interessantes, mas todas elas me ensinaram algo. E é por isso que escolho não encarar este momento com tristeza.

Quem sabe o que virá a seguir? Para mim, para os miúdos, para a equipa, para todos nós? Juntos ou separados a vida certamente tem tanto mais à nossa espera.

Por cada sitio que passamos, deixamos um bocadinho de nós e levamos muito connosco, e muitas vezes o que as pessoas temem mais não é o fim propriamente dito, mas o impacto que isso terá nas relações que se criaram durante esse período. Eu percebo isso, também costumava ter esse receio, mas essa é na verdade a melhor parte. A melhor parte é que se tomarmos as decisões certas nada tem de se perder. Se fizermos as escolhas certas, se mantivermos a disponibilidade e continuarmos a aparecer mesmo quando não há um horário que nos obrigue a isso, as relações podem mudar, podem evoluir, mas não têm de terminar.

Monday, October 07, 2019

"You're braver than you believe, stronger than you seem, and smarter than you think" (Winnie the Pooh)


Nota: Versão portuguesa mais abaixo


The first time I went away people called ME crazy, the second time, when I took you with me, they called US crazy, now it’s time YOU be “crazy” on your own.

From the moment you were put into this world you were a sparkle of joy in my life. You were the sister I kept begging for without success. From changing your diapers when you were a baby, to cleaning up other kind of “fluids” in your teens, we went through it all. I’m older, but we grew up together, from your coach to your teammate, from being your summer camp monitor, to being your summer camp colleague, from picking you up from the train after your first day of college because you were too stinky to ride a bus, to get rides from you… It’s been a busy 24 years.

I knew I wasn’t being crazy by challenging you to go to Poland, because I knew, first hand, how life altering such experience could be and I had no doubt you could grow from it too. Still, how much you’ve grown since then keeps amazing me. It’s hard to believe you’re the same girl who couldn’t put two words together in English, the girl that survived on baby food the first time I left her alone in Poland…

Our life is full of moments together. Despite some challenges, our EVS in Poland brought us together, but having the chance to work side by side with you the past year has been even more incredible. You brought to my mind that memory of being a sparkle of joy, you never complained, you never failed to try, you were always so positive, even when things got tough. I am bias, without a doubt, but that’s the feedback I got from other people too, that you were great, and in a selfish way I feel proud.

You’ve surprised many people with the path you’ve decided to take (me included) and the honors of your accomplishments belong to anyone but you. You’re responsible for your choices, you’re responsible for the results that came from those opportunities and more importantly you are responsible for the success you’ve had so far. You’re self-sufficient and you don’t need my help anymore, but you most certainly have my support, and I’m so incredibly proud to be able to watch your journey from the first row.

I’ve always carried the weight of the world in my shoulders, I always felt like I had to set a good example or be a good role model, but you’ve taught me that in order to inspire people you don’t need to be perfect, you just need to be yourself.

You’re not afraid to show you’re scared or terrified of your choices, you’re not afraid to say you’re uncertain, but that doesn’t make you back away, you jump regardless of your fears, and there’s nothing braver than that.

When I left to the USA 10 years ago, a lot of people and a lot of opinions (I imagine you feel the same too), but one person gave me the simplest advice, he said “Go, come back… and go again”, and that’s what my advice for you too. As long as it makes sense for YOU, as long as you feel that YOU are learning something, don’t ever stop going. People have the best intentions but only you know what you truly need.

I know you have your fears, it’s only normal, but trust me, whatever happens… India is going to be awesome, YOU are going to be awesome!





“És mais corajosa do que acreditas, mais forte do que pareces e mais esperta do que pensas” (Winnie the Pooh)


A primeira vez que fui para fora as pessoas disseram que EU era maluca, a segunda vez, quando te levei comigo, as pessoas disseram que NÓS éramos malucas, agora chegou a hora de TU seres “maluca” sozinha.

Alegraste o meu mundo desde o momento em que nasceste, já que ninguém ouvia as minhas preces para uma irmã mais nova, e tu acabaste por ser o que mais próximo consegui arranjar. Desde mudar as tuas fraldas quando eras bebé, a limpar outro tipo de “fluídos” na tua adolescência, passámos por todas as fases. Sou mais velha, mas a verdade é que crescemos juntas, desde ser tua treinadora, a tua colega de equipa, desde ser tua monitora em campos de férias e a ser tua colegas, desde te ir buscar ao comboio no primeiro dia de faculdade (porque estavas demasiado mal cheirosa para entrar no autocarro), para apanhar boleias tuas… foram 24 anos agitados.

Quando te desafiei para ires para a Polónia comigo sabia que não estava a ser maluca, porque sabia, em primeira mão, o quanto uma experiência do género poderia mudar o rumo de uma vida, e não tinha qualquer dúvida que ias crescer imenso com essa aventura. Ainda assim, o quando evoluíste desde então continua a surpreender-me. É difícil de acreditar que és a mesma miúda que não dizia duas palavras seguidas em inglês, ou que sobreviveu a boiões de comida de bebé, a primeira vez que fui de férias e te deixei sozinha na Polónia…

A nossa vida está repleta de momentos juntas. Apesar de alguns desafios, o EVS na Polónia aproximou-nos, mas ter a oportunidade de trabalhar lado a lado contigo no último ano foi uma experiência ainda mais incrível. Voltaste a alegrar o meu mundo quando apesar das dificuldades nunca te queixaste, nunca deixaste de tentar, e mantiveste sempre uma positividade incrível. Sou parcial, sem dúvida, mas esse é também o feedback que tenho recebido de outras pessoas, que foste incrível, e de forma algo egoísta, sinto-me orgulhosa.

Surpreendeste muitas pessoas com o caminho que tens tomado (eu inclusive), e o crédito das tuas conquistas só pertence a ti. És responsável pelas tuas escolhas, és responsável pelos resultados que surgiram com essas oportunidades, e mais importante ainda és responsável pelo sucesso que atingiste até agora. És independente e já não precisas da minha ajuda, mas continuas a ter todo o meu apoio, e estou incrivelmente orgulhosa de poder acompanhar mais esta aventura da primeira fila.

Sempre carreguei o peso do mundo nos ombros, sempre achei que tinha de dar um bom exemplo ou de ser um modelo, mas tu ensinaste-me que para se inspirar os outros não precisamos de ser perfeitos, precisamos apenas de ser nós mesmos.

Não tens medo de mostrar que tens incertezas ou que as tuas escolhas te assustam, mas isso não te faz hesitar, apesar dos teus medos arriscas, e não há acto mais corajoso que esse.

Quando parti para os EUA há 10 anos, muitas pessoas tinham muitas opiniões (imagino que agora sintas o mesmo), mas uma pessoa deu-me um conselho muito simples, ele disse-me “Vai, volta… e vai outra vez”, e é isso que te digo também. Desde que continua a afazer sentido para TI, desde que continues a sentir que TU estás a aprender alguma coisa, nunca deixes de ir. As pessoas têm boas intenções, mas só tu sabes o que realmente precisas.

Sei que tens receios, é normal, mas confia em mim, aconteça o que acontecer… a Índia vai ser brutal, TU vais ser brutal!

Sunday, September 15, 2019

This time / Desta vez


Nota: Versão portuguesa mais abaixo
                                                  
                        
It all started with a phone call, just like last time… after all that’s often how it starts, isn’t it?

You hear the shaky voice on the other side of the line, you take in the news, which aren’t really all that clear, and you hang up.
You breathe deeply, you feel your heart racing a bit more than you should, but you shake it off and regain your composure.

This time is different, this time there’s still a chance that it’s nothing, this time there’s room for hope.
You jump in the car and it feels like déjà vu… stuck in a car again, just like last time, except last time you had to drive for endless hours and this time is different, this time there’s still a chance that it’s nothing.

A couple phone calls as you ride and by the time you get there, you’ve jumped on auto pilot and practical mode.
You wait patiently and the answers come faster than you expected. You look at the doctor, you see her mouth moving, but you can barely make sense of her words. It’s all so fast, one moment she’s there, the next she’s gone.

You think she delivered good news, but with her big words and quick pace, she didn’t do much to comfort you.

More people arrive…. each with their own set of questions, everyone undoubtedly scared but most doing their best to mask it and assure the others that everything will be fine. We all keep a straight face, we joke and laugh and we push through because that’s who we are. In the face of fear, in the face of danger, in the face of pain… we push through, we stick together and we push through.

Time goes by, little by little pieces of information are put together and the message seems a bit clearer. After they finally see her everyone relaxes just a little more… this time is different. I don’t need to see her, I see it in their eyes, this time is different.

The day is long, my knees hurt from standing all day and my neck is stiffer than usual, but when I finally get home I need to get out again. I need to walk it off. I’m not sure if what washes over me is relief or adrenaline or some other feeling I can’t identify, but I can’t stay still, I feel strangely energized.

Everything can change with a phone call, just like it did last time… but this time we were lucky, this time it was just a scare. This time it WAS different.


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Desta vez


Tudo começou com um telefonema, tal como da última vez, afinal normalmente é assim que tudo começa, não é?

Do outro lado da linha ouves uma voz tremida, absorves as notícias, ainda que pouco claras e desligas.

Respiras lentamente, sentes o teu coração a bater um pouco mais rápido do que o costume, mas depressa te recompões.

Desta vez é diferente. Desta vez há uma hipótese que não seja nada. Desta vez há espaço para a esperança.

Entras no carro e há uma estranha sensação de deja vu... presa num carro novamente, tal como da última vez, apesar de que na última vez tiveste passaste horas na estrada... e desta vez é diferente. Desta vez há uma hipótese que não seja nada.

Mais umas chamadas enquanto estás no carro e quando lá chegas entras em modo prático, piloto automático.

Esperas pacientemente por respostas, que chegam mais rápido do que esperavas. Olhas para a médica, vês a sua boca a mexer, mas torna-se difícil perceber o que diz. É tudo tão rápido, um momento está lá, no momento a seguir já se foi.

Achas que te deu boas notícias, mas com as suas palavras caras e o seu ritmo acelerado, é difícil ter a certeza.

Chegam mais pessoas... cada um com o seu leque de perguntas, todos sem dúvida assustados mas a maioria a dar o seu melhor para manter uma aparência tranquila e confiante. Todos mantemos a postura, por nós próprios e por quem nos rodeia, rimos, conversamos e fazemos piadas, empurramos a bola para a frente, porque é assim que somos. De caras com o medo, de caras com o perigo, de caras com a dor... empurramos a bola para a frente. Mantemo-nos juntos e empurramos a bola para a frente.

O tempo passa, e aos poucos os pedaços de informação vão se aglutinando e a mensagem fica mais clara. Depois de a verem ficam todos mais descontraídos... desta vez é diferente. Eu não preciso de vê-la, vejo-o nos olhos deles, desta vez é diferente.

O dia é longo, os meus joelhos doem de estar em pé tanto tempo, e o meu pescoço está mais tenso do que é habitual, mas quando chego a casa sinto uma necessidade imediata de voltar a sair. Preciso de andar. Não sei se o que sinto é alívio ou adrenalina, ou um qualquer outro sentimento que não sei identificar, mas não consigo ficar parada, sinto-me estranhamente energizada.

Tudo pode mudar com um telefonema, tal como da última vez, mas desta tivemos sorte, desta vez foi só um susto. Desta vez foi diferente.


Sunday, September 01, 2019

The silent killer / O assassino silencioso



Disclaimer: I’m not a professional in mental wellness, the following text reflects only my opinion based on my life experience so far / Não sou professional de sáude mental, este texto reflete apenas minha opinião sobre o tema com base na minha experiência de vida até agora

Nota: Versão portuguesa mais abaixo



Whether due to stress, society pressure, academic intensity, internal or external factors, the reality is that most of us has been close to someone battling mental illness or has faced mental illness themselves. The question is, were we aware of it?

Perhaps one of the biggest problems of mental illness – regardless if we’re talking about depression, anxiety, bipolarity, etc – I that unlike illnesses that physically affect our bodies, mental illnesses are way less visible.

According to the latest data, it’s predicted that nowadays, one in four people deals with some form of mental illness. The number is shocking if we take it in and imagine all the situations we’ve been over the years unaware of what we were dealing with.

Mental illness is a powerful enemy, mostly because we’ve grown used to mask our struggles and emotions, which makes diagnosis much harder. We’ve grown to believe that mental illness attacks people from less privileged backgrounds or that it always comes as a result of a trauma, which is not true. These myths make it not only harder to identify the problem, but also lead to a strong sense of guilt – How can I be depressed if I have a good life and a loving family? How can I suffer from anxiety/panic attacks when I’ve never suffered any trauma?

Mental illnesses such as bipolar disease, kleptomania and addiction, very often invisible to the outside world, can have devastating effects and be disruptive to the flow of an entire family. Its symptoms affect not only the mentally ill, but all the ones around them, as it has the power to take over everything and exhaust families to the point of self-destruction.

Depression and anxiety, on another hand, can be even worst enemies, has they often lurk over our shoulders for decades without anyone even realising they are there. During adolescence we are often led to believe that these overwhelming feelings that take our breath away and weigh hard in our chest are a temporary/normal stage of growing up, that we should stay strong and carry on that better days will come. And yes, everything feels bigger and more dramatic in our teens, but a lot of times there’s more to the story…

The thing is that overtime we get so accustomed with this reality that it becomes our normal… A child who grows up with a bipolar parent, who constantly has to deal with mood swings and accept their explosive/aggressive behaviour, may grow up to believe that she deserves that treatment, and therefore be more likely to be stuck in toxic relationships. A teenager who has seen his depression and anxiety disregard by those close to him, may go through all his adult life without realising he needs professional support – because those so called temporary fears and feelings were constant for so long that now he’s convinced their part of his identity.

How do you fight it though? How do you help put an end to something you don’t always know exists? And how do you help others without falling into the very common mistake of letting it dragging you down too?

You put yourself first! You don’t lose perspective of those you care about, but you put yourself first.

I was brought up to care about others, and a lot of times that means you are encouraged to always think about others first, you are encouraged to prioritize their needs over yours. And I’m very proud of my upbringing and the way I was raised to look around myself and care for those who surround me, but what I’ve realized over the years it that I had to re-educate myself because I lack(ed) the ability to balance my needs and the needs of everyone else. Because the reality is that in order to maintain your mental health sometimes you need to be a little self-centred. Not selfish, never selfish, but self-centred.

We need to focus on ourselves, read the signs our body/mind give us, be aware of the struggles we’re facing and for how long, in order to prevent ourselves from falling in such a big deep hole that we are no good for anyone.

Like other illnesses, no one is safe from mental illness, the best you can do is watch the signs and follow your gut – if it doesn’t feel right, if it doesn’t feel temporary or that it will go away with time, then maybe it’s because it won’t, not unless you do something about it, not unless you find help. Don’t try to forget it in hopes that it will go away, only to find out years later that the problem only grew bigger.

That’s perhaps our biggest mistake when dealing with mental illness, ours or our loved ones, indulge it, ignore it and pretend it is not there. It may trick us to believe it’s fading away, but whatever issues you have that are left unresolved will come back to haunt you sooner or later.

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O assassino silencioso


Seja devido ao stress, à pressão da sociedade, à intensidade académica, a factores externos ou internos, a realidade é que a maior parte de nós já esteve próximo de alguém com doença mental, ou já enfrentou doenças mentais. A questão é, estavamos conscientes disso?

Talvez o maior problema da doença mental – seja ela, depressão, ansiedade, bipolaridade, etc – é que, ao contrário das doenças que fisicamente afectam o nosso corpo, a doença mental é muito menos visível.

De acordo com os últimos dados, estima-se que uma em cada quadro pessoas sofra de algum tipo de doença mental. O número é chocante, se pensarmos na enormidade de situações em que já estivemos na presença de doenças mentais sem sequer nos apercebermos.

A doença mental é um inimigo poderoso, essencialmente porque crescemos habituados a esconder as nossas fraquezas e emoções, o que torna o seu diagnóstico muito mais difícil. Crescemos a acreditar que a doença mental apenas ataca pessoas mais desfavorecidas, ou que tem de ser sempre resultado de um trauma, o que não é verdade. Estes mitos dificultam não só a identificação do problema, mas também levam a um grande sentimento de culpa – Como posso estar deprimido se tenho uma boa vida? Como posso sofrer de ansiedade/ataques de pânico se nunca sofri nenhum trauma?

Doenças mentais como a bipolaridade, cleptomania e comportamentos aditivos, muitas vezes invisíveis para o mundo exterior, podem ter efeitos devastadores e afectar o funcionamento de toda a família. Os seus sintomas não afectam apenas a pessoa doente, mas todos aqueles que lhe são próximos, uma vez que tem o poder de se sobrepor a tudo e levar as famílias à exaustão e auto-destruição.

A depressão e a ansiedade, por outro lado, podem ser ainda piores inimigos, uma vez que se escondem na nossa mente por décadas sem ninguém perceber que sequer lá estão. Durante a adolescência muitas vezes fazem-nos crer que os sentimentos esmagadores que nos tiram a respiração e pesam no nosso peito são sintomas temporários e normais da idade, que devemos ser fortes e seguir em frente, que melhores dias virão. E sim, tudo é mais intenso e dramático na adolescência, mas muitas vezes é mais do que isso...

O problema é que com o tempo acabamos por nos acostumar tanto a estes sentimentos, que acabam por se tornar a nossa realidade, a nossa normalidade... uma criança que cresce com um pai bipolar, que constantemente tem de lidar com alterações bruscas de humor e aceitar o seu comportamento explosivo/agressivo, pode crescer a acreditar que merece ser tratada dessa forma e por isso ter maior tendência para se manter em relações tóxicas. Um adolescente que vê a sua depressão e ansiedade desvalorizada por aqueles que estão à sua volta pode passar a vida adulta inteira sem perceber que precisa de ajuda profissional – porque os tais medos e sentimentos “temporários” se mantiveram constantes por tanto tempo, que agora acredita fazerem parte da sua identidade.

Como é que se luta contra isto? Como é que se ajuda a por termo a algo que muitas vezes nem sabemos que existe? E como é que se ajuda alguém na luta contra a doença mental, sem cair no erro comum, de se deixar arrastar também para esse poço sem fundo?

Aprendes a pôr-te em primeiro lugar! Não perdes a perspectiva dos outros, mas pões-te em primeiro lugar.

Como tantas outras pessoas, fui educada para me preocupar com os outros, e muitas vezes isso significa ser encorajado a pensar nos outros primeiro, a por as prioridades dos outros à frente das nossas. Tenho muito orgulho da forma como fui educada, de como fui ensinada a olhar para além do meu umbigo e preocupar-me com os que me rodeiam, mas o que fui aprendendo ao longo da vida é que houve uma necessidade de me reeducar, porque me falta(va) a capacidade de equilibrar as minhas necessidades com as necessidades do resto do mundo. E a verdade é que, muitas vezes, a única forma de mantermos a nossa saúde mental é sermos um bocadinho egocêntricos. Não egoístas, nunca egoístas, mas egocêntricos.

Precisamos de nos focar em nós próprios, ler os sinais que a nossa mente/corpo nos dá, estar consciente das lutas internas que nos assolam e há quanto tempo nos acompanham, para nos protegermos  e não cairmos, nós próprios, num poço tão fundo que nos impossibilita de ajudar alguém.

Tal como outras doenças, ninguém está a salvo das doenças mentais, o melhor que podemos fazer é estar atentos aos sinais e seguirmos os nossos instintos – se não parece normal, se não parece temporário ou algo que melhora com o tempo, talvez não seja. Não tentes por tudo para trás das costas, esquecer, na esperança que com o tempo essa sensação desapareça, para anos mais tarde descobrires que o problema ficou ainda maior.

Esse é talvez o nosso maior erro quando lidamos com doenças mentais, as nossas ou de quem nos rodeia, fechar os olhos, ignorar, fingir que não vemos. Podemos cair na ilusão que aos poucos o problema está a desaparecer, mas o que quer que seja que não ficar resolvido, mais cedo ou mais tarde vai acabar por reaparecer.