Sunday, April 07, 2019

Is family everything? / A família é tudo?


Nota: Versão portuguesa mais abaixo


It is not uncommon for people to have a degree of fascination for my family. We’re a numerous bunch of weird humans, with very unusual dynamics, whose sense of normalcy tends to differ quite a lot from the general population.

Growing up, I thought having 60+ people over for Christmas was normal, that everyone did Christmas plays to entertain the family, that it was common to go on summer holidays with 30 other people or organize family-exclusive summer camps… It was overtime that slowly I realised that not every grandma had an industrial fridge in her kitchen, and not every kid had 12 uncles and aunts and over 25 cousins… You see, I grew up surrounded by people. Where I come from, whether you wanted it or not, you were never alone.

Now that I’m more aware of how different we are from a “normal” family, I do understand the curiosity of the outsiders. It has happened in different occasions that we are sharing family stories and I get the impression that people create this ideally image of our family. It’s more than an impression, actually, people have said it, they praise our unity and harmony. And it got me thinking if to some degree I was being hypocritical, because if there’s a family who is as dysfunctional and messed up as any other, it is ours. So why doesn’t that come across to people? Is it something that we hide?

When I look at it, there’s actually a lot that isn’t perfect about us…
We are loud and quite often insane.
We are critical and harsh.
We’re unhealthily strong. In our own ways we tend to carry the weight of the world in our shoulders.  
We are demanding, and very rough around the edges, and whenever we’re around things tend to get messy.
We’re not all warm and fuzzy, and unlike people may think, we don’t often let out spontaneous proclamations of love for each other.
It’s not always easy to find your place in such a crowed environment, even less to make your voice be heard.
We don’t all get along to the same level. Actually, some don’t get along at all.
You mention any kind of family dispute and we have it. You don’t get to gather this many people together without getting all the craziness too.

 So, why is it that none of this seems to transfer to those who ask us about our family?

I think there are two main reasons for it.

One is that although we are not all close, when I think of family, when I speak of family, what comes to my mind are the ones that are close to me. Family to me, has very little to do with blood. Family to me are the people who go through life with you and so when I share stories about my family, these are the people I naturally tend to focus on. It is not a deliberate thought to hide something, it’s honestly instinctively focus on those who matter.
The second reason is that, despite all the “non-perfect” issues mentioned above, there is something much stronger biding us together, a sense of belonging to this unique clan with its own set of rules and values, that no-one from the outside can truly comprehend.

We cherish our time together. We don’t just settle for the big occasions, we make a conscious effort to create opportunities to gather.  

We are loyal and we tackle our problems together. As annoying as it can be at times to have a bunch of people weighing in in a personal issue, it is also comforting to know that that many people care.

We have a lot of opinions, and most of us are not afraid to share them, but if you screw up there will always be a hand to pull you up, because chances are, someone else has messed up even badly before.

There may be a lot of uniqueness about our family, but there’s actually very little perfection, which is very likely why it works… because we are a group of very different, imperfect people, who chose to stay together and who in reality follow only one common rule, no-one is left behind!

I don’t often know where I fit in this family, but I never doubt that I belong here. And if there’s one thing than I know for sure is that whether I’m on the side that has a problem, or the side that is trying to resolve it, if I’ll pick up the phone, there will be someone on the other side.


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A família é tudo?


É comum as pessoas terem um certo grau de fascinação pela nossa família. Somos um grupo enorme de estranhos seres humanos, com uma dinâmica muito própria, cujo sentido de normalidade tende a ser muito diferente do resto da população.

Quando era miúda pensava que era normal ter mais de 60 pessoas à mesa para o jantar de natal, pensava que em todas as casas se faziam peças de teatro para entreter a família, que era comum ir de férias com mais 30 pessoas, ou organizar campos de férias exclusivos para a família... Só com o tempo percebi que nem todas as avós tinham um frigorífico industrial na cozinha, que a maioria das crianças não tinha 12 tios e mais de 25 primos direitos... Eu cresci rodeada de gente. De onde venho, quer o desejasses ou não, nunca estavas sozinho.

Agora que tenho mais noção de como somos diferentes de uma família “normal”, percebo um pouco melhor a curiosidade de quem está de fora. Acontece em várias ocasiões partilhar histórias de família, e muitas vezes fico com a impressão que as pessoas criam uma imagem idealizada da nossa família. Na verdade é mais do que uma impressão, muitas vezes as pessoas elogiam a nossa união e harmonia. E isso fez-me pensar até que ponto estava a ser hipócrita, porque se há família mais disfuncional que todas as outras, é certamente a nossa. Então porque é que isso não parece passar para os outros?

Quando penso objectivamente, na verdade há muita coisa que não é perfeita na nossa família...

Somos barulhentos, e para utilizar um eufemismo, insanos.
Somos muito críticos e bruscos.
Somos nocivamente fortes. Cada um há sua maneira, temos tendência a querer carregar o peso do mundo nos nossos ombros.
Somos exigentes, e duros, e quando estamos por perto tudo tem tendência para se tornar caótico.
Não somos muito carinhosos, e ao contrário do que as pessoas possam pensar, não proclamamos facilmente o amor que sentimos uns pelos outros.
Não é fácil encontramos o nosso espaço num ambiente tão lotado, e ainda é mais difícil fazer com que a nossa voz seja ouvida.
Não nos damos todos bem. Na verdade, alguns de nós não se dão de todo.
Qualquer nível de disputa familiar que possam pensar, nós temos. Afinal de contas, não seria possível juntar um número tão grande de pessoas sem arrastar muita loucura também.

Então, porque é que nada disto parece ser absorvido por aqueles que nos perguntam sobre a nossa família?

Na verdade acho que há duas razões principais.

A primeira é que apesar de não sermos todos próximos, quando penso em família, quando falo de família, o que me vêm à ideia são as pessoas que estão perto de mim. A família para mim tem muito pouco a ver com consanguinidade. A família para mim são as as pessoas que enfrentam a vida ao meu lado, e por isso, quando partilho histórias sobre a minha família, são essas as pessoas de quem naturalmente me lembro. Não há nenhuma intenção deliberada de esconder o outro lado, há apenas um instinto natural de me focar em quem importa.

A segunda razão é que, apesar de todas as “imperfeições” mencionadas anteriormente, há algo muito mais forte que nos une, um sentimento de pertença a um clã único, com o seu próprio conjunto de regras e valores, que ninguém que não faça parte dele poderá verdadeiramente compreender.

Estimamos o tempo que passamos juntos, mas não nos deixamos limitar por ocasiões especiais. Fazemos um esforço consciente para criar oportunidades para nos juntarmos e tiramos o maior partido delas.

Somos leais e enfrentamos os grandes problemas em conjunto. E por muito irritante que possa ser por vezes ter um monte de gente a dar palpites sobre um assunto pessoal, também é reconfortante saber que tanta gente se preocupa.

Temos muitas opiniões, e muitos de nós não temos problemas em partilhá-las, mas se fizeres asneira vai sempre haver uma mão que te ajude a levantar, porque o mais provável é que já alguém antes tenha feito uma asneira maior.

A nossa família pode ter um lado único, mas na verdade tem muito pouco de perfeito... o que provavelmente é exactamente o que faz com que funcione tão bem... porque somos um grupo de pessoas muito diferentes e imperfeitas que decidiram manter-se juntas e que na verdade só têm uma regra em comum, não deixar ninguém para trás!

Nem sempre sei qual é o meu papel nesta família, mas nunca duvido que a ela pertenço. E se há certeza que tenho é que quer esteja no lado de quem tem um problema ou quem está a tentar resolvê-lo, se pegar no telefone vai sempre haver alguém do outro lado.

Thursday, March 28, 2019

Know your impact/Conhece o teu impacto


Nota: Versão portuguesa abaixo


When i was little I used to wonder how the world would be if i had never been born.

It happened in different occasions, but I have this clear vision of third grade me, sitting at the cafeteria, surrounded by friends and teachers that I loved, and just wonder if anything would be any different if I wasn’t there.

I’d shut my eyes hard, until all I could see was pitch dark, in hopes the image would get clear. Much like toddlers, who cover their eyes and believe no-one can see them, I thought maybe if I’d close mine they wouldn’t see me.

I didn’t feel out of place, I wasn’t sad or depressed, nothing really brought it up, I was just curious… I was simply a kid, I hadn’t accomplished anything major, I hadn’t made a difference in the world, I didn’t even know that many people, so how much difference could it really make?

The answer for this question, I’d learn later, is something I will never know.

I might find out how much losing someone can change every little thing in one’s life, and I have. But that’s not the same as knowing how never meeting someone can change the route of things.

As I said, I don’t really know what made me have these thoughts, I guess I just always needed a purpose, I thought I needed a reason to be here… alive. Merely living always seemed too simple, I was sure there had to be something else, a bigger picture, some kind of mission.

Growing up was hard, feeling the years pass by and not feeling any closer to finding out what my mission was, was daunting. For a long time I was so worried I was wasting precious time that I ended up not fully enjoying what I had in hands.

I’ve learned to slow down slightly. I’ve realised, over the years, that while I worried I was wasting time, I was actually having one of a kind experiences and growing myself up. And I may not be any closer to finding out WHY I am here, but I dare to say I’m a little bit closer to WHO I am. 

I don’t think I’ll ever stop needing a reason to justify my existence, that’s just who I am… but maybe a need to take a step back and see things from a different perspective.

What if I don’t need to look for a reason anymore? What if, whatever my purpose is, I have being working it without even knowing?

“Know your impact”

I was reading today about all the plans and ideas we all have and how often, despite our best intentions and motivation, we get stuck on “Where do I start?”. According to the author the answer was as simple as “Know your impact” - find out the magnitude your actions, your existence, has on the people around you, and take it from there. And it got me thinking that maybe it’s not about finding a purpose and shaping our lives to it, maybe it’s about looking into our lives and see what being ourselves is already accomplishing.    


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Conhece o teu impacto


Em pequena tinha por hábito tentar imaginar como seria o mundo se eu nunca tivesse nascido.

Era algo que fazia com alguma regularidade, mas lembro-me em particular de  um dia, na terceira classe, estar no refeitório, rodeada de amigos e professores que adorava, e de tentar imaginar se alguma coisa seria diferente se eu não existisse.

Fechava os meus olhos com muita força, até não ver nada mas um denso manto preto, na esperança de conseguir imaginar com mais clareza. Tal como um bebé que tapa os olhos e acredita que ninguém o vê,  pensava que talvez se fechasse os meus também eu desaparecesse.

Não me sentia deslocada, não estava triste nem deprimida, não tinha acontecido nada de particular, tinha apenas curiosidade... era só uma criança, ainda não tinha feito nada de especial, ainda não tinha contribuído com nada para o mundo, nem sequer conhecia assim tantas pessoas, por isso também não podia fazer assim uma diferença tão grande, certo?

A resposta a essa pergunta, descobriria mais tarde, nunca iria encontrar.

Poderia até vir a descobrir como perder uma pessoa pode mudar significativamente a nossa vida, o que se veio a verificar. Mas isso é diferente de sabermos como é que o facto de nunca conhecermos uma pessoa pode alterar o nosso caminho.

Não sei de onde vinham estes pensamentos, acho que simplesmente sempre precisei de um propósito, pensava que precisava de uma razão para estar aqui... viva. Meramente viver sempre me parecera demasiado simples, estava certa que tinha de haver algo mais, uma espécie de missão.

Crescer foi difícil, sentir os anos a passar e não me sentir mais perto de descobrir qual era a minha missão era aterrador. Durante muito tempo preocupei-me tanto em desperdiçar tempo que acabei por não aproveitar o que tinha em mãos.

Eventualmente acabei por aprender a abrandar um pouco. Aprendi, com os anos, que durante o tempo que achava que desperdiçava, estava na verdade a viver experiências únicas e a crescer. E talvez não esteja hoje mais próximo de descobrir PORQUE é que estou aqui, mas atrevo-me a dizer que estou mais próxima de QUEM sou.

Acho que nunca vou deixar de precisar de uma razão que justifique a minha existência, mas percebo agora que talvez tenha de olhar para trás com uma perspectiva renovada.
E e não precisar de procurar uma razão? E se, qualquer que seja o meu propósito, eu já o esteja a realizar sem me dar conta?

“Conhece o teu impacto”

Hoje, estava a ler sobre todas as ideias e planos que temos e que frequentemente, apesar das nossas intenções e motivações, deixamos cair por terra porque ficamos presos no “Onde é que começo?”. De acordo com o autor,  resposta é tão simples como “Conhece o teu impacto” – descobre a magnitude que as tuas ações, a tua existência, tem nas pessoas à tua volta, e começa ai.

Isso fez-me pensar que se calhar não se trata de encontrarmos um propósito e moldar as nossas vidas a ele, se calhar trata-se de olharmos para as nossas vidas e percebermos o que é que sermos nós mesmos já atingiu.

Sunday, March 10, 2019

Women/Mulheres


Nota: Versão portuguesa mais abaixo.

A few years ago, my friend, who had recently moved in into a new area, was telling me about this neighbour she had watched and instinctively guessed was part of my family. After asking a few questions we came to the conclusion that she was right, that the woman she was talking about was indeed one of my aunts. When I asked how she had guessed it, she said there was something about the way she was handling 3 small kids on her own, completely relaxed, but in control, that she just knew.

That’s the story of my life – I come from a BIG family of strong, independent women, a lot of which are/were mainly (if not exclusively) in charge of not only the kids, but also all family and even financially matters. It all started in my childhood, and don’t get me wrong, men were always present – brothers, uncles, dad – but it was always very clear to me, as a kid, who was in charge. There was one person we’d ask permission for if we wanted to do something (and one person we “feared” when we got in trouble)… and that was mom!

It wasn’t just at home, from the matriarch grandmother who birthed and raised 13 children, to the single aunts who carried the family and the sisters who support eachother through the ups and downs of life, the message has always been clear – it isn’t always easy, but we look after eachother, we face things together and we don’t leave anyone behind.

Family had, therefore, its major role in shaping my conceptions about women in the early years, but the reality of it is that, due to sheer of luck or because my previous experiences led me to higher standards, it didn’t end there.  

Looking back, my whole life I’ve been blessed to be surrounded by strong women. There’s the wiser older one who always speaks her mind, the one  who unapologetically lives in her own world at her own pace, the one I met as a crazy, irresponsible (but tremendously talented and confident) young girl who has grown so much, the bubbly one who battles depression, the one who asked for a leave of absence and crossed the ocean to build homes for people in need, the one who was forced to emigrate at a young age and soon became a top student in a foreigner language school, the ones who venture to exotic destinations with female partners only (or even alone), the ones who organize these kind of trips for women who may not feel confident enough to do it alone, and so many others I could talk about. All around, I have friends from around the world who fight for their dreams, who break barriers and stereotypes and support other women along the way. Teachers, athletes, engineers, future doctors and surgeons, entrepreneurs, stay at home moms, married or single, straight or gay, black or white, rich or poor… real people, who are not perfect, who cry and fall and make mistakes, but do not give up. It just shows strong women can be find everywhere.

I often hear that women are nasty for eachother and I strongly disagree. I don’t doubt that has been your experience, but maybe it’s not about the gender, but the kind of people you surround yourself with. I played basketball in a female team for over 15 years, I went to college in an all girl’s class and I work in female-dominated field, and sure I have encountered my fair share of unpleasant women (just like I have met my fair share of unpleasant men), however, the majority of them, and the ones I choose to remember, are women who raise people higher, who genuinely celebrate other women’s success, who watch out for eachother, who support and inspire the ones around them, who are fierce yet sensible, who care about others and find simple ways to make a hard day just a tiny bit easier.

These are the kind of women I have in my life and this is the kind of woman I strive to be.


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Mulheres

Há uns anos, uma amiga que tinha mudado de casa recentemente estava a contar-me sobre uma vizinha que ela tinha visto, e que na sua opinião só podia ser da minha família. Após algumas perguntas, chegámos à conclusão que a mulher em questão era de facto uma das minhas tias. Quando lhe perguntei como tinha adivinhado, a minha amiga disse que havia algo na forma despachada e em controlo como a mulher estava a gerir uma situação sozinha, com três filhos pequenos, que a levou a instintivamente chegar a essa conclusão.

Essa é a história da minha vida – sou descendente de uma GRANDE família de mulheres fortes e independentes, muitas das quais foram/são maioritariamente (se não exclusivamente) responsáveis não só pelas crianças, mas também por todas as questões familiares e por vezes até financeiras. Tudo começou na minha infância, e não me interpretem mal, os homens estiveram sempre presentes – pai, irmãos, tios – mas foi sempre claro para mim, enquanto miúda, quem é que estava no comando. Havia uma pessoa a quem pedíamos autorização para fazer fosse o que fosse (e uma pessoa que “temíamos” quando nos metíamos em sarilhos)... a mãe!

Isto não acontecia só em casa, desde a avó matriarca que deu à luz e criou 13 filhos, às tias solteiras que carregavam a família, passando claro pelas irmãs que se apoiam pelos altos e baixos da vida, a mensagem sempre foi bem clara – as coisas nem sempre são fáceis, mas tomamos conta umas das outras, enfrentamos as coisas juntas e não deixamos ninguém para trás.

A família teve por isso um papel fundamental na forma como criei as minhas concepções sobre as mulheres nos meus primeiros anos de vida, mas por pura sorte, ou porque as experiências do passado me levaram a ter padrões mais elevados, não terminou aí.

Olhando para trás, toda a minha vida estive rodeada de grandes mulheres. Há a mais velha e sábia que nunca deixa nada por dizer, aquela que sem desculpas vive no seu mundo à parte e ao seu próprio ritmo, aquela que conheci como maluca e irresponsável (mas incrivelmente talentosa e confiante) que cresceu imenso, a bem disposta que luta contra a depressão, aquela que pediu licença sem vencimento para cruzar o oceano e construir casas para famílias necessitadas, a que foi obrigada a emigrar ainda criança e que rapidamente se tornou uma aluna de topo numa escola estrangeira, aquelas que se aventuram em destinos exóticos com outras amigas (ou até sozinhas), as que organizam excursões a estes tipos de destinos para mulheres que não se sentem confiantes em fazê-lo sozinhas e tantas mais que haveria para falar. Mulheres dos quatro cantos do mundo que lutam pelos seus sonhos, quebram barreiras e estereótipos e que apoiam outras mulheres pelo caminho. Professoras, atletas, engenheiras, futuras médicas e cirurgiãs, empreendedoras, mães a tempo inteiro, casadas ou solteiras, gays ou heterossexuais, brancas ou pretas, ricas ou pobres... pessoas reais, que não são perfeitas, que choram e caem e cometem erros, mas que não desistem. O que mostra que grandes mulheres podem ser encontradas em qualquer lugar.

Já ouvi várias vezes dizer que as mulheres são más umas para as outros, e discordo fortemente dessa ideia. Não duvido que essa seja a experiência de algumas pessoas, mas acho que tem pouco a ver com o género e mais a ver com o tipo de pessoas com quem nos escolhemos relacionar. Fiz parte de uma equipa de basket feminina durante mais de 15 anos, na faculdade a minha turma era constituída apenas por mulheres e trabalho numa área dominada pelo sexo feminino, e claro que já me cruzei com mulheres desagradáveis (tal como já me deparei com homens desagradáveis), mas a maioria, e aquelas que escolho lembrar são mulheres que elevam as pessoas à sua volta, que genuinamente celebram o sucesso de outras mulheres, que cuidam umas das outras, que apoiam e inspiram quem as rodeia, que são destemidas mas sensíveis, que se preocupam com os outros e que procuram pequenos gestos para tornar um dia difícil um bocadinho mais fácil.

Este é o tipo de mulheres que tenho na minha vida, e este é o tipo de mulher que ambiciono ser.

Thursday, November 15, 2018

Finding yourself / Procura interior


Note: Portuguese below.

How many of us, at some point in life, have felt the need to find themselves? For some it happens in teenage years, or after college, for some much later, maybe masked as a mid-life crisis, but sooner or later, chances are we will go through it.

The question is, what does it even mean? How do we lose ourselves? Our self is not an object that can be left behind, forgotten in a random corner, so how do we lose it? And more importantly, how do we find it?

Perhaps we don’t. Perhaps it was never really lost to begin with, perhaps it is just disguised under cultural conditioning, society’s opinion and inaccurate self-judgment we’ve developed over the years.

Who were you has a child? What did you believe in, what made you tick prior to being led to be who the world thought you should be?

Losing yourself usually happens when, consciously or unconsciously, you let the world change you in ways that force you to do or be what you should do/be, instead of doing what you truly want and being who you really are.

We are not the same people we were when we were children, we’ve lost innocence, we’ve changed, we’ve grown… but is our core really that much different? Our hopes and dreams may have developed, but how distant are they from where they originally started?

What if we have it wrong from the start? What if we don’t need to find ourselves? What if what we do need is to follow the path that will help us create ourselves, starting from the naïve children we were and taking in consideration each and every defining experience we have had?

There’s this mystic notion of finding ourselves, like a magical quest that will end up in a perfect place where all the answers are found and we are immerse in an unbroken sense of tranquility, but what if the goal is not the destination, but the journey?

We see this process of soul-searching as a need to redefine ourselves, but what if the ultimate goal is not to become anything different, but to go back to our roots and embrace who we were meant to be in the first place? New beginnings and fresh scenarios will be helpless if you don’t allow yourself to look inside, accept who you are and what you want to become.



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Procura Interior 


Quantos de nós, em algum momento das nossas vidas, sentimos a necessidade de procurar o nosso verdadeiro “eu”? A alguns acontece na adolescência, ou a seguir à faculdade, para outros bastante mais tarde, às vezes até disfarçada de uma crise de meia-idade. Seja em que altura for, o mais provável é passarmos por isso.
A questão é, o que é que isso significa? Como é que perdemos o nosso “eu”? Não é um objecto que possamos deixar para trás, esquecido num canto qualquer, então como é que o perdemos? E mais importante ainda, como é que o encontramos?

Se calhar não encontramos. Se calhar na verdade nunca o perdemos, se calhar o nosso “eu” está só escondido por baixo de camadas de condicionantes culturais, opiniões da sociedade e julgamentos negativos que fomos desenvolvendo sobre nós mesmos ao longo dos anos.

Quem eras enquanto criança? No que é que acreditavas? O que é que fazia o teu coração bater mais forte antes de te sentires forçado a ser aquilo que o mundo esperava que fosses?

Este processo de perda do nosso “eu” normalmente acontece quando, consciente ou inconscientemente, deixamos o mundo influenciar-nos de tal forma que passamos a fazer e a ser o que é suposto, em vez daquilo que verdadeiramente queremos e/ou somos.
Não somos as mesmas pessoas que éramos enquanto crianças, perdemos inocência, mudámos, crescemos… mas será o nosso core assim tão diferente? As nossas esperanças e sonhos podem ter-se desenvolvido, mas estarão assim tão distantes dos originais?

E se estivermos a ver isto tudo de forma errada desde o início? E se não precisarmos de nos encontrar? E se tudo o que precisamos é seguir o caminho que nos ajude a criar o nosso “eu”, partindo da criança inocente que fomos e tendo em consideração todas as experiências significativas que tivemos ao longo da vida?

Há uma mística enorme à volta desta ideia de procura interior, como se tratasse de uma caça ao tesouro mágica que termina num lugar perfeito onde encontramos todas as respostas e estamos imersos num inabalável sentimento de tranquilidade, mas e se o objectivo não for o destino final, mas sim o caminho?

Vemos este processo de procura interior como uma necessidade de nos redefinirmos, mas se calhar o que precisamos não é de nos tornarmos em algo diferente, mas sim voltarmos às origens, e abraçarmos aquilo que sempre soubemos ser. Recomeços e mudanças de cenário são inúteis se não estivermos dispostos a olhar para dentro de nós, e aceitar quem somos e o que queremos ser.

Friday, October 19, 2018

Vitamin H / Vitamina A

Nota: Versão portuguesa abaixo.

"We need 4 hugs a day for survival, 8 for maintenance and 12 for growth”
Virginia Satir


Once, when I was 14/15 years old, I was waiting to be picked up after basketball practice when a friend approached me and complained about how she missed our old coach. She proceeded to hug me and a few seconds later I heard the horn indicating my parents had arrived. As soon as I entered the car they asked me what was wrong and I said nothing, because nothing really was, but they kept insisting, something must had been wrong otherwise why would we be hugging? My dad started to get aggravated, because we really wanted to know what was wrong, and eventually my mom told him to let go, because whatever was wrong, pressuring me wouldn’t help. I know they were coming from a good place, that they just wanted to know what was going on so they could fix it, but that moment stuck with me, because I couldn’t understand why it was so hard to believe that two people were simply hugging for “no reason”.

More recently, I was saying goodbye to a friend after work and we hugged, like we often do, when she left, a girl who was waiting for me asked if my friend was going to on a trip, confused I said no, to which she replied “but you hugged… that’s weird!”. A few years back I might have agreed with her, but at that moment I felt sad for her because if she thought hugging a friend was weird, it meant she had no idea how good it felt.

I’m not a very touchy person, I don’t love being surrounded by people and human touch doesn’t necessarily comes natural to me, maybe because overtime I also developed that idea that I needed a reason, an excuse, to hug someone. However, over the years I was lucky enough to cross paths with people that thought differently, people who hugged me just because, and that made me change my mind.

How many of us, in the face of distress, wish we could go back to when we were children and someone could just hug us and we’d believe everything would be fine? We will never be that innocent again, but even as grown adults hugs can give us the comfort often times we don’t even know we need.

Emotional proximity is vital for our development as human beings, we need to feel emotionally involved to learn and grow, and hugs are one simple way to nurture this proximity and build a connection with others. Nothing can bring you closer to someone than a proper hug, a hug where you feel the energy flow between the two bodies. There’s no lying when it comes to hugs, you can tell when it’s not meant, so there’s a huge degree of honesty that assures you that you are loved, respected and that you belong.

I could talk all day about the science behind it, but that’s not why we’re here today. We don’t need to study the effects hugs can have on us, we need to feel it.

As children, seeking comfort is something we do naturally, we are smart that way when we are kids, but as time goes by most of us forget how to do it, and it takes time and even effort to reeducate ourselves in this matter. I’m not a natural hugger. For a long time I convinced myself that this touchy-feely stuff was not for me, and to be fair, with a lot of people hugging still doesn’t come automatically to me, I still get quite stiff in a lot of interactions, so why did I start hugging?

Unconsciously I think it all started with kids. My awkwardness towards people doesn’t extend to the little ones, when it comes to kids hugging and comforting are instinctive to me, and what I realized was that whenever I was holding them I’d take as much comfort from the embrace as they did. That was my first lesson - the power of hugs - there’re mutual benefits, there’s equal value in receiving and providing a warm embrace.

I’m the kind of person who absorbs other people’s pain, maybe I don’t have enough drama in my life, or I don’t want to deal with it, so I tend to feel other people’s pain as my own, I also tend to want to fix things. When you have this level of empathy, and to a degree get affect by people’s pain you realize that you end up needing that hug as much as the wounded person. You see someone suffering and you wrap your arms around them for a supportive embrace, to comfort them, and become aware you don’t want to let go, because you also need the comfort. In a selfish way it eases your pain, it convinces you that even if temporary, you might have contributed to that person’s sense of safety.

My brain is constantly flooded with words, so much so, that when important times come I often can’t choose what to say. I’m rational, I like explanations, I need words to make sense of life, but truth of the matter is, a lot of times there’s really nothing you can say that can change the situation, nothing that can take the pain away. Hugs can help. Suddenly you feel the body you are holding relaxing against yours, you feel your heartbeats steadying and for a second you forget everything else. For a second you forget your problems, for a second you let go of control, you stop trying to fix other people’s pain and just take pleasure in the moment. Hugs help you express your emotions, they let the other person know what words can’t say. There’s so much that can be put in a hug that words can’t express.

About a year and a half ago, a friend introduced me to the concept of “vitamins”. By vitamins she meant all the positive actions/gestures that involved other people and had the power to energize us. Vitamin H (=hugs) was very high on the list. It started as a joke, but the more I thought about it, the more sense it made. I started paying attention, and I came to the conclusion that on tougher days at work I’d found myself waiting for the time kids would come from school, because the first thing they’d do was come to me for some cuddles, and I realized it was their hugs that helped me get through the day.

Hugs force us to take a break from the rush of everyday life and our thinking patterns, and connect with another soul, which is why we don’t need anything to be wrong in order to hug someone.  The first time I moved abroad on my own I was barely 22 years old. It was a great experience, I’ve never even felt homesick. I was fine. I was traveling, I had met great people, I was proud of myself for the risk I was taking, I was having the time of my life, and yet, whenever I visited Auntie Annee’s home and she would squeeze me in a bear hug I felt my body melt. To this day that’s one the fondest memories I keep from that year.

Yesterday we were running a workshop about “Vitamins” with a class at high school, the whole idea was for teens to reflect on the effect different actions/words can have on people and how they could help improve their school’s environment. When we were about to finish we asked them why they thought we had named the workshop “Vitamins”, a few kids were confused because the workshop was not related to food, but one girl coyly said it made sense because those positive actions/gestures (=vitamins) were food for the soul. And that’s what hugs are, they are vitamins for the soul, they feed our hearts and fuel our lives.



“Precisamos de 4 abraços por dia para sobreviver, 8 para nos manter e 12 para crescer”
Vírgina Satir


Uma vez, quando  tinha 14/15 anos, estava à espera de boleia a seguir ao treino quando uma amiga se aproximou e se queixou das saudades que tinha do nosso ex-treinador. Quando terminou deu-me um abraço e nesse preciso momento ouvi a buzina do carro que indicava que os meus pais tinham chegado. Assim que entrei no carro perguntaram-me o que é que tinha acontecido, o que é que estava errado, eu respondi nada, porque a verdade é que estava tudo bem, mas continuaram a insistir, alguma coisa de errado devia ter acontecido, senão porque nos estaríamos a abraçar? O meu pai começou a ficar irritado pois queria realmente saber o que se tinha passado, até que a minha mãe lhe disse, que se realmente alguma coisa não estava bem pressionar-me não ia ajudar. Naturalmente a intenção era boa, estavam preocupados, mas esse momento ficou-me marcado na memória pois não conseguia perceber porque é que era tão difícil acreditar que duas pessoas amigas se estavam simplesmente a abraçar, sem particular motivo.

Mais recentemente, estava a despedir-me de uma colega à saída do trabalho e demos um abraço, como fazemos frequentemente, quando ela foi embora a pessoa que estava à minha espera perguntou se a minha amiga ia de férias, confusa disse que não, ao que ela respondeu “mas vocês abraçaram-se... isso é estranho!”. Há uns anos atrás talvez tivesse concordado com ela, mas naquele momento tive pena dela, porque se alguém acha estranho abraçar um amigo é porque não faz ideia do bem que isso sabe.

Não sou uma pessoa muito carinhosa, não gosto de estar com muita gente e o toque humano não é algo a que reaja com naturalidade, talvez porque com o passar do tempo fui também eu acreditando que é necessário uma razão, uma desculpa, para se abraçar alguém. No entanto, tive a sorte de ao longo da minha vida me cruzar com pessoas que pensam de maneira diferente, pessoas que me abraçaram “sem razão”, e que me fizeram mudar de ideias.

Quantos de nós, em momentos de stress, desejamos voltar a ser crianças e ter alguém que nos abrace e que nos faça acreditar que tudo vai ficar bem? Nunca mais voltaremos a recuperar essa inocência, mas mesmo enquanto adultos, é num abraço que podemos encontrar o conforto que muitas vezes nem sabemos que precisamos.

A proximidade afectiva é essencial ao nosso desenvolvimento enquanto seres humanos, precisamos de nos envolver emocionalmente para aprender e crescer, e os abraços são uma maneira simples de nutrir esta proximidade e estabelecer uma relação com os outros. Nada nos aproxima mais de outra pessoa do que um abraço bem dado, um abraço daqueles em que se sente a troca de energia entre dois corpos. É impossível aldrabar um abraço, sente-se quando não é sentido, por isso há um enorme grau de honestidade que acompanha um bom abraço, que nos faz sentir amados, respeitados e que pertencemos.

Podia passar o dia a escrever sobre a ciência por detrás dos abraços, mas não é para isso que aqui estamos. Não precisamos estudar os efeitos que os abraços podem ter em nós, precisamos de senti-los.

Enquanto crianças, procurar o conforto nos braços de outra pessoa é algo que fazemos com naturalidade, contudo, com o tempo, a maior parte de nós perde essa capacidade e é preciso tempo e algum esforço para recuperá-la. Não sou uma pessoa que distribua abraços naturalmente, durante muito tempo convenci-me que esse tipo de “lamechices” não eram para mim, e para ser sincera ainda hoje não consigo fazê-lo com toda a gente, ainda fico muito rígida se sou apanhada desprevenida, não é necessariamente algo que faça sempre com espontaneidade... então porque é que decidi começar a dar mais abraços?

Inconscientemente acho que começou tudo com as crianças, é com eles que estou mais confortável e com eles os abraços e os mimos são instintivos. O que percebi com o tempo foi que quando os abraçava isso dava-me tanto conforto a mim como lhes dava a eles. Isso foi a minha primeira lição – o poder dos abraços – que há benefícios mútos, que o prazer é igual para quem dá ou quem recebe um abraço.

Sou o tipo de pessoa que absorve as dores dos outros, talvez não tenha drama suficiente na minha vida, ou talvez não queria lidar com ele, por isso tenho tendência para sentir dores alheias como minhas, e tenho também o hábito de querer resolver tudo. Quando se tem este nível de empatia, e se é afectado pelo sofrimento dos outros acabamos por perceber que precisamos do seu abraço tanto quanto eles precisam do nosso. Vemos alguém a sofrer e oferecemos um abraço, conforto, e o que acabamos por perceber é que não queremos que o momento termine, porque a verdade é que também nós precisávamos desse abraço. De uma forma egoísta, esse abraço apazigua as nossas dores, convence-nos que, ainda que temporariamente, talvez tenhamos contribuído para que essa pessoa se tenha sentido a salvo.

O meu cérebro é constantemente inundado por palavras, tanto que nos momentos importantes tenho dificuldade em escolher quais usar. Sou racional, gosto de explicações, preciso de palavras para entender o significado da vida, mas a verdade é que muitas vezes não há nada que possamos dizer para melhorar a situação, palavras nenhumas que possam eliminar a dor. Os abraços ajudam. Sentir o corpo que abraçamos a relaxar junto ao nosso, sentir os batimentos cardíacos a estabilizar, por um segundo esquecemos tudo o resto. Por um segundo esquecemos os nossos problemas, por um segundo abdicamos do controlo, deixamos de tentar resolver os problemas da outra pessoa e simplesmente aproveitamos o prazer que aquele momento nos dá. Os abraços ajudam-nos a expressar as nossas emoções, dizem ao outro aquilo que as palavras não conseguem explicar.

Há cerca de um ano e meio, uma amiga introduziu-me ao conceito de “vitaminas”. Por vitaminas entendia todas as acções/gestos positivos que envolvem o outro e que têm o poder de nos energizar. A vitamina A (=abraço) estava no topo da lista. Tudo começou como uma brincadeira, mas quanto mais pensava no assunto mais sentido fazia. Comecei a prestar atenção e percebi que nos dias mais difíceis no trabalho dava por mim ansiosa que os miúdos chegassem da escola, porque a primeira coisa que faziam quando chegavam era vir ter comigo para mimos, e cheguei à conclusão que os seus abraços era o que eu precisava para aguentar o dia até ao fim.

Um abraço força-nos a fazer uma pausa, a tirar um momento de um dia agitado, a deixar de lado os pensamentos e a conectar com o outro, e é por isso que não é preciso estar nada errado para se dar um abraço. A primeira vez que fui viver para o estrangeiro sozinha tinha acabado de fazer 22 anos. Foi uma experiência brutal, nunca sequer tive saudades de casa. Estava bem. Estava a viajar, conheci pessoas fantásticas, estava orgulhosa dos riscos que estava a correr, estava a adorar cada momento, e ainda assim, sempre que visitava a casa da Annee e ela me esborrachava num abraço apertado sentia o meu corpo a derreter. Até hoje é uma das melhores memórias desse ano que guardo comigo.

Ontem, estávamos a dinamizar um workshop sobre “Vitaminas” com uma turma de 10º ano, e a ideia era que os jovens explorassem os efeitos que diferentes acções/gestos têm nas pessoas e como é que eles podiam contribuir para um interacções mais positivas na escola. Perto do fim perguntámos aos jovens porque é que achavam que tínhamos intitulado o workshop de “Vitaminas”, alguns estavam confusos porque o workshop não tinha nada a ver com comida, mas timidamente uma rapariga disse que fazia todo o sentido pois estas acções/gestos positivos (=vitaminas) representavam a “comida psicológica”. E é isso que os abraços são, vitaminas para o nosso ser, alimentam os nossos corações e estimulam as nossas vidas.  

Thursday, October 11, 2018

The big 3-0 / Os grande 30


Nota: Versão portuguesa mais abaixo


On the morning of my 6th birthday I woke up in the morning and ran straight to the kitchen. I opened the third drawer, found a balloon and blew as hard as I could… nothing happened. Frustrated, I put the balloon aside, puckered my lips and blew… again nothing happened! I was crushed, absolutely crushed. For the past months I had admired how my cousin could whistle and blow up balloons on her own. She was 10 months older than me and she had promised me these were skills “only six year olds could master”. To my disappointment, despite being older, clearly nothing had changed overnight… It was a hard lesson at the time, but I’ve learned! And the same lesson goes regardless how old you are turning. Nothing will change just because you are turning a year older. 

We tend to perceive our lives in terms of milestones, and round numbers like 30s, 40s, etc, are definitely some of those that are often overrated. I guess turning 30 can be scary for some people… if you weren’t willing to admit it before, now there’s no escape, you are an adult! But what does that mean? What does it mean being an adult? What does it mean being 30? The truth is that it doesn’t mean anything… or better yet, it can mean whatever you want it to mean! You have a choice, you define how you want to look at it. It can be a year like any other, or it can be a turning point, it all depends on how you face it.

I read somewhere that “the only time you really live fully is from 30 to 60 [because] the young are slaves to dreams [and] the old servants of regrets” and if we look at it not necessarily from a chronological age point of view, but from a state of mind point of view it makes sense to me.

I was a slave to dreams.

As a child I lived in a bobble. I was a kid who was always happy, I woke up happy. I dreamed big and I believed in… well, everything. Then reality stroke and for a very long time I struggled hard. I was constantly disappointed at myself because I couldn’t possibly achieve the ideals I had set up myself for, I could never be enough for the standards I thought I must fit in. I was chasing a future that wasn’t humanly reachable.

Everything that came after that perfect childhood bobble has been a constant struggle. People tell you to give it time, that it’s just a phase, and that’s probably the worst advice I’ve ever been given! All those years, I kept waiting for the phase to finish, I kept waiting for clear skies, I kept waiting for the time I would finally feel like I belong… until one day I realised this “just a phase” situation had last for over 15 years!

This awareness was depressing at first, terrifying even, but after a little while, surprisingly enough I felt relief. A new sense of freedom and liberation came with knowing that life would never get simpler and time would never magically fix anything, so I could stop waiting, and finally start living. Change doesn’t happen overnight or all at once, it’s all in the little things, in the challenges you dare to face, in the small victories that nobody sees. You will never go back to who you were, I can’t deny that by this age all innocence has been lost, but by now it has been replaced by a new sense of reality, mixed with a strong sense of hope and a healthy belief that, one way or another, everything will work out.

Growing older means you have to concede some defeats, namely, that unlike you were told as a child, some things will never be possible no matter how hard you work for them. But growing up means you take ownership for who you are and who you want to be. It means you make a choice - whether you want to keep finding excuses or put in the work to be the kind of person you want to be, the kind of person you know you have the potential to be.

As I was reflecting on the past year, I realised, that actually, for me 30s were a year of change and big decisions, but it just happened naturally, I didn’t rush or plan any of them because I had turned 30 and in all honesty everything that has happened, that I made happen during this past year, was only possible because of everything I went through the years leading up to this one. This might have been the biggest change, the self-awareness. I have always been an insightful person, but sometimes I was too close to be able to really see what was going on. I focused mostly on the things I hadn’t achieved yet, the times I had failed, the people I might have let down. If anything, age brought me a new perspective.

In  hindsight I realised that despite all the struggles and my darkest hours, or the lack of faith for better days, there was one thing I had never stop doing… trying! I’d refused to cave to my fears and it was by facing them, by constantly crossing the line, that I made change happen. All the experiences that I had, all the ups and downs, all the tears and sleepless nights, led me to right here, to a place where I felt ready and confident to make these decisions and embrace change.

Growing up doesn’t mean you’ll have a better understanding of life, what you do have is a better understanding of who you are and your needs. You start feeling more comfortable in your own skin, you let go of that urge to please others and you finally realise that it is okay not to fit in a box. You learn to identify your strengths and even to embrace your flaws.

You may worry if I say I quit pursuing happiness, however what I realised is that I’m not the kind of person who will ever be content. I will never be completely happy, I know that much about me, because I will always be searching for more… and that’s not necessarily a bad thing. There’s nothing wrong with working for more, as long as you don’t forget to appreciate what you have along the way. Or who…

Which is another benefit of this stage in your life, you know who your core people are. You realise how important it is to be surrounded by quality people, who keep you grounded and inspire you to be a better version of yourself. You are open to new friends and possibilities, but you know who will be there to tell the story when the curtain falls.

Some people do feel the pressure of turning 30 or being close to it. Some of this pressure comes from society but quite a big load of it is self-inflicted. But take it from me: turning 30 isn’t all that bad. Turning 30 doesn’t make life easier or worse, but I think if you go into it with the right mind set it may give you some clarity. If you stop listening to the voices that tell you what you should do or not do by this age and be bold enough to listen to your inner voice instead, you may find the courage to keep fighting for what you believe in.






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No dia do meu sexto aniversário, saltei da cama e corri para a cozinha! Abri a terceira gaveta a contar de cima, encontrei um balão e soprei com toda a minha força... não aconteceu nada. Frustrada, deixei o balão de lado, humedeci os meus lábios e soprei novamente... e mais uma vez não aconteceu nada! Foi provavelmente a primeira grande desilusão da minha vida. Durante meses tinha admirado como a minha prima era capaz de assobiar e encher balões sozinha. Ela era apenas 10 meses mais velha que eu, mas tinha-me garantido que era por isso que o conseguia fazer, pois estas eram coisas que “apenas as pessoas com 6 anos conseguiam fazer”.  Para grande desalento meu, contudo, apesar de ter ficado mais velha, nada havia mudado. Foi uma lição dura na altura, mas aprendi! E a mesma lição aplica-se independentemente da idade que fazemos. Nada muda do dia para a noite, nada muda simplesmente porque estamos mais velhos.

Tendemos a ver a nossa vida em termos de metas, e números redondos como 30, 40, etc, são definitivamente alguns dos momentos que são excessivamente valorizados. Fazer 30 anos pode ser assustador para algumas pessoas... se não estavam dispostas a admiti-lo antes, agora não há como escapar, são adultos! Mas o que é que isso significa? O que significa ser adulto? O que significa ter 30 anos? A verdade é que não significa nada... ou melhor, significa aquilo que nós quisermos! Temos uma escolha, somos nós quem define como queremos olhar para isso. Pode ser um ano como qualquer outro ou pode ser um momento de viragem, tudo depende de como o enfrentamos.

Li algures que “a única altura em que se vive plenamente é entre os 30 e os 60 anos [porque] os jovens são escravos dos sonhos [e] os velhos criados dos arrependimentos” e se olharmos para isso não necessariamente do ponto de vista de idade cronológica, mas do ponto de vista de estado de espírito, faz sentido.

Eu era escrava dos meus sonhos.

Enquanto criança vivia numa bolha. Era uma criança que estava sempre feliz, eu acordava feliz! Sonhava grande e acreditava em... bem, tudo. Depois a realidade atingiu-me de repente e durante muito tempo a luta foi difícil. Vivia desiludida comigo mesma por não conseguir atingir os ideais a que me propunha, nunca me sentia suficiente para os padrões que acreditava ter de atingir. Estava a perseguir um futuro inalcançável para qualquer ser humano.

Tudo o que veio depois da “bolha da infância” é uma batalha constante. As pessoas dizem-nos para darmos tempo ao tempo, que é apenas uma fase, mas isso é o pior conselho que alguma vez recebi! Durante anos esperei que a fase acabasse, durante anos esperei por melhores dias, durante anos esperei pelo momento em que finalmente sentiria que pertencia... até que um dia percebi que esta situação, que esta “fase”, durava há mais de 15 anos!

Inicialmente esta tomada de consciência foi deprimente, aterrorizadora até, mas pouco depois, surpreendentemente essa depressão foi substituída por alívio. Perceber que a vida nunca se iria tornar mais fácil e que o tempo jamais iria resolver tudo, trouxe-me um novo alento, trouxe uma sensação de liberdade e determinação – finalmente podia parar de esperar e simplesmente... viver. A mudança não acontece de um dia para o outro, está tudo nas pequenas coisas, nos desafios que te atreves a enfrentar, nas pequenas vitórias que ninguém vê. Nunca voltamos a ser quem éramos no passado, não posso negar que nesta idade a inocência da infância já foi completamente perdida, mas foi substituída por um novo sentido de realidade misturado com uma dose certa de esperança de que tudo vai correr bem.

Envelhecer implica aceitar algumas derrotas, nomeadamente, que ao contrário do que nos disseram em crianças, algumas coisas são inantigiveis, por mais que nos esforcemos para as atingir. Mas crescer implica significa assumir responsabilidade por quem somos e quem queremos ser. Implica tomar uma decisão – continuar à procura de desculpas ou dedicarmo-nos a ser a pessoa que queremos ser, a pessoa que temos o potencial para ser.

Estive a reflectir sobre o último ano e percebi que no meu caso os 30 foram efectivamente um ano de mudanças e grandes decisões, mas isso aconteceu naturalmente, não me precipitei simplesmente por ter atingido os 30 anos. Aliás, tudo o que aconteceu neste último ano, tudo o que fiz acontecer, só foi possível devido a todas as vivências que tive durante os anos anteriores. Talvez isso seja a maior mudança, esta consciência. Sempre fui uma pessoa reflexiva, mas às vezes faltava-me a distância necessária para perceber o que realmente se estava a passar. Focava-me demasiado no que ainda não tinha atingido, nas vezes que havia falhado, nas pessoas que podia ter desiludido. Se houve algo que a idade me trouxe foi uma nova perspectiva.

Em retrospectiva cheguei à conclusão que apesar de todas as lutas, da falta de fé, e mesmo nos meus momentos mais negros, houve uma coisa que nunca deixei de fazer... tentar! Sempre me recusei a ceder aos meus imensos medos e foi ao enfrentá-los e ao forçar-me a sair da zona de conforto constantemente que aos poucos a mudança aconteceu. Todas as experiências que tive, todos os altos e baixos, todas as lágrimas e as noites em branco, conduziram-me até aqui – um lugar onde me senti pronta e confiante para tomar as decisões que tomei este ano e abraçar a mudança.

Crescer não significa ter um melhor entendimento da vida, o que temos é um melhor entendimento de nós mesmos e das nossas necessidades. Passamos a sentir-nos mais confortáveis na nossa própria pele, abdicamos de tentar agradar a toda a gente, e acabamos por perceber que não faz mal sermos diferentes. Aprendemos a identificar os nossos pontos fortes e até a aceitar os nossos defeitos. Talvez se preocupem se vos disser que abdiquei de perseguir a felicidade, no entanto, o que percebi é que não sou o tipo de pessoa que irá alguma vez sentir-se totalmente satisfeita. Nunca serei completamente feliz, sei isso sobre mim, porque sei que quererei sempre mais, estarei sempre à procura de mais... e isso não é necessariamente mau. Não há nada de errado em querer sempre mais, desde que não nos esqueçamos de apreciar tudo o que já temos. Ou quem...

Que é outro benefício que esta idade nos traz, sabemos quem são as nossas pessoas, as nossas referências. Percebemos a importância de nos rodearmos de pessoas de qualidade, que nos mantêm focados e que nos inspiram a procurarmos sempre ser a melhor versão de nós mesmos. Estamos abertos a novas amizades, mas sabemos quem estará lá para contar a história quando o pano cair.

Algumas pessoas sentem a pressão de fazer 30 anos, ou de estar perto desse marco. Parte dessa pressão é atribuída pela sociedade, mas grande parte é autoinfligida. Mas acredita em mim: fazer 30 anos não é assim tão mau. Fazer 30 anos não torna a tua vida mais fácil nem mais complicada, quanto muito, se entrares nos 30 com a mentalidade certa poderá trazer-te alguma clarividência. Se parares de ouvir as vozes que dizem o que deves ou não fazer com esta idade e fores atrevido o suficiente para ouvires a tua voz interior poderás encontrar a coragem que precisas para continuares a lutar pelo que acreditas.